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Conheça as mulheres na tecnologia que transformam o setor no país

Publicado em 04/03/2020 por Lucca Rossi

mulheres na tecnologia

As grandes corporações já entenderam: um local de trabalho que promove a pluralidade, a equidade e a inclusão é sinônimo de ganhos em várias frentes, da rentabilidade à inovação.

Como destaca a consultoria Gartner, estudos recentes mostram que há conexão entre diversidade étnica e de gênero e a melhora dos resultados dos negócios (relatório completo disponível para assinantes), tanto é que, até 2022, estima-se que 75% das grandes empresas incluirão critérios de inclusão e diversidade ao processo de escolha de ferramentas para a gestão do seu capital humano (relatório completo disponível para assinantes).

Outro elemento-chave para a diminuição do gap de gênero é a capacitação. Prova disso é a presença no Brasil dos megaeventos impulsionados por gigantes da tecnologia como o Google. O seu projeto “Cresça com o Google”, por exemplo, já beneficiou 100 mil pessoas desde o seu lançamento no país, em 2017. A edição brasileira deste ano, que ocorre no dia 13 de março, em São Paulo, promoverá um treinamento gratuito sobre liderança e empreendedorismo digital para mulheres. 

Embora as iniciativas se multipliquem, os números são desanimadores. Segundo dados do IBGE, somente 20% das profissionais de TI são mulheres no Brasil. E o pior: elas ganham em média 34% menos do que eles.   

As oportunidades para fazer da igualdade de gênero uma preocupação central na gestão de talentos da indústria de TI e começar a mudar tal dinâmica, no entanto, estão dadas: de acordo com dados da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação, a perspectiva é que até 2024 a demanda no setor deverá chegar a 420 mil novos profissionais. Trata-se de um bom momento para as empresas pensarem suas contratações impulsionando a equidade.

Mulheres na tecnologia: quando elas assumem a liderança

Atentas a essa realidade e com vontade de transformá-la, muitas engenheiras, programadoras e analistas de dados brasileiras tomaram as rédeas com iniciativas para promover uma maior inclusão feminina no mundo da tecnologia no Brasil. 

Projetos como PrograMaria, {reprograma}, Minas Programam, Preta Lab, She’s Tech, Cloud Girls, Pyladies, entre outros, trabalham para que mais mulheres jovens, negras, trans ou simplesmente aquelas que buscam novas oportunidades de carreira tenham acesso à formação e a comunidades de profissionais que lhes deem o apoio necessário para trabalhar, empreender e discutir novas ideias. 

O Capterra entrevistou algumas das líderes dessas iniciativas e também conversou com mulheres em diferentes fases das suas carreiras para saber sobre suas experiências, as dificuldades que enfrentaram, a evolução das suas trajetórias e como elas enxergam o seu futuro na área. Com isso, buscamos desenhar um pequeno panorama do mercado das mulheres de TI no país.

Confira abaixo essas histórias: 

Ana Luca Diegues

Com quase 20 anos de carreira e passagens por empresas como IBM, Uol e instituições como o Banco Itaú, a engenheira Ana Luca Diegues é um exemplo da importância do aprendizado na prática, tão comum entre as que se dedicam ao mundo da tecnologia. 

Interessada por informática desde pequena por influência familiar, teve a chance de aplicar o que havia visto em casa logo em seu primeiro estágio, em um banco público, onde trabalhava na área contábil. O estágio acabou lhe abrindo as portas ao primeiro trabalho, e o estudo formal, tanto técnico como universitário, só veio mais tarde.

A conscientização de entrar em um mercado laboral dominado pelo sexo masculino não foi imediata, afirma Diegues. A participação em um encontro de mulheres dedicadas à tecnologia, o Cloud Girls, foi um dos gatilhos que lhe despertaram para a questão. 

O Cloud Girls nasceu dentro de uma outra comunidade de tecnologia sobre computação em nuvem, onde a presença feminina nunca ultrapassava os 10% (que se resumia à minha presença e a de mais duas mulheres). O organizador do Meetup foi então desafiado a criar um grupo só para mulheres pelo time do Google Campus, onde aconteceu o primeiro Meetup do Cloud Girls

Quando você promove isso, coisas ‘mágicas’ acontecem: a primeira delas é o fato de que as mulheres descobrem que são muitas, só estão espalhadas. A segunda é que muitas das dificuldades e vieses são comuns, ou seja, você descobre que aquilo que acontece com você, acontece com a maioria de nós.

 

Para Diegues, o acesso das novas gerações à educação e à informação será um fator decisivo para, na sua opinião, o “futuro promissor” das mulheres na área.

“Não há espaço no futuro para quem não entender que representamos parte importante das consumidoras, da força de trabalho e do potencial da inovação. Nós somos parte ativa da construção do futuro”, afirma. 

Danielle Monteiro

Mestre em engenharia da computação pela Universidade de São Paulo (USP), colunista do site iMasters, autora do blog DB4Beginners (para ajudar desenvolvedores iniciantes), palestrante do evento de tecnologia TEDx, a arquiteta de dados Danielle Monteiro acumula um currículo repleto de iniciativas voltadas à difusão e ao ensino da tecnologia que acolhem profissionais de TI independentemente de gênero. 

Muitas das empreitadas surgiram dos momentos duros vividos em seus quase 20 anos de carreira, que lhe fizeram acreditar que o caminho das novas profissionais poderia ser “bem diferente” do seu e a empurraram a trabalhar para mudar essa realidade. 

Como outras das mulheres ouvidas pelo Capterra, Monteiro entrou na área por acaso. 

“Quando prestei vestibular, queria fazer fisioterapia”, conta. “Um belo dia, me ligaram da Fatec [São Paulo] perguntando se eu iria fazer a matrícula. Eu nem tinha verificado a lista, porque não estava nos meus planos. Foi assim que entrei na faculdade.”

As dúvidas a respeito da profissão desapareceram com a entrada no mercado de trabalho, que lhe despertou para as possibilidades que atuar na área podiam proporcionar. 

“No segundo semestre [da faculdade] eu consegui um estágio. Ganhava mais do que a minha mãe, que era copeira hospitalar. Me interessei primeiro pelo dinheiro e não pela tecnologia. Isso foi mudando quando comecei a entender o impacto da tecnologia na vida das pessoas. Nessa etapa eu já amava programar. Até que passei a trabalhar com bancos de dados e me encontrei! Era como se todas as minhas escolhas tivessem feito sentido”, explica.

Nas universidades, infelizmente, só vejo iniciativas frágeis e concentradas no mês de março. Existem falhas desde a quantidade de professoras até o incentivo para as alunas continuarem no curso.

Por outro lado, acredito na força das comunidades femininas, como o WoMakersCode, para apoiar e incentivar as mulheres a entrar e continuar no mercado e nas faculdades de tecnologia. Juntas formamos uma rede de apoio forte e extensa.

 

Veja a entrevista completa

Iana Chan

Jornalista formada pela USP, Iana Chan é uma das jovens empreendedoras de maior êxito no mercado de TI brasileiro. 

Em 2015, movida pelo seu interesse de longa data pela programação e por uma “inquietação com a falta de mulheres na tecnologia”, fundou a PrograMaria. A iniciativa ajuda empresas a se conectarem e contratarem mão de obra técnica por meio de cursos para mulheres que querem entrar na área e não têm conhecimento prévio. Outra frente da PrograMaria são ciclos de formação em tecnologias e ferramentas específicas para as profissionais que já atuam na área e querem se aperfeiçoar. 

Desde a sua fundação, a ProgaMaria já organizou 16 oficinas com mais de 300 participantes, além de quatro edições do curso Eu ProgrAmo, em que mulheres sem conhecimentos prévios aprendem fundamentos de HTML (veja como funcionam os editores HTML), CSS e Javascript e onde já se formaram 115 alunas. 

Dentre as que decidiram seguir carreira em tecnologia, quase 80% conseguiram emprego na área em até um ano após o curso, destaca Chan.

Durante muito tempo, o computador e o videogame foram objetos direcionados para os meninos. Tudo isso cria esse estereótipo tão difundido de que mulher e tecnologia não combinam. O senso comum e errôneo de que ‘mulheres não são boas em matemática’ tem consequências na relação negativa que muitas mulheres acabam criando com a tecnologia e nas carreiras que escolhem seguir. Não dá para simplificar e dizer que se trata apenas de “falta de interesse’, é importante problematizar como essas experiências, estímulos e oportunidades diferentes contribuem para a desigualdade na área.

 

Veja a entrevista completa

Letícia Portella

Mestre em oceanografia, a engenheira de software Letícia Portella é outra profissional que teve o rumo da carreira mudado depois do contato com a programação.

Aprendeu a programar sozinha ainda na faculdade e, com a ajuda de colegas, amigos e mentoras (“fundamentais” no seu aprendizado e que lhe “mostraram por onde seguir”) abriu as portas do mercado de trabalho para iniciar uma carreira na área. 

Desde 2016, ano da sua primeira experiência como desenvolvedora, trata de devolver o que recebeu: foi diretora de marketing e trabalhou como organizadora de eventos da Python Brasil, que divulga essa linguagem de programação no país, ajudou na organização de outras conferências sobre o tema, além de participar de iniciativas como a Django Girls e a Pyladies, que promovem workshops de programação para mulheres. 

Também mantém um blog, em que escreve sobre tecnologia e carreira, e criou o Pizza de Dados, um podcast sobre ciência de dados.

Acredito que esse ecossistema é fundamental para ajudar a aumentar a diversidade na tecnologia. Os eventos em que eu participo sempre têm uma preocupação em serem um ambiente seguro, onde as pessoas podem ir sem ter medo. E esse ecossistema é importante não apenas porque ajuda a mostrar como programar e como impulsionar uma carreira na área, mas também a criar justamente o tipo de rede que me ajudou a alavancar a minha carreira.

 

Para as que estão começando, Portella tem quatro dicas: 

“Crie sua rede de conhecidas, aprenda bem pelo menos uma tecnologia, aprenda a se vender e seja corajosa.” 

Dica: Para o seu dia a dia no trabalho, Portella destaca também a importância de ferramentas de colaboração, como Dropbox paper. No blog do Capterra, mostramos a relevância da utilização de ferramentas que melhoram a colaboração entre membros do mesmo time ou de times diferentes para otimizar tarefas e aprimorar resultados.

 

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Mariel Reyes Milk

Com um currículo focado na área de desenvolvimento econômico e uma longa passagem pelo IFC (sigla em inglês para Corporação Financeira Internacional), organização vinculada ao Banco Mundial, Mariel Reyes Milk entrou no mundo da tecnologia graças ao seu interesse por projetos sociais. 

Em 2016, depois de deixar o IFC, fundou a {reprograma}, startup de impacto social focada em ensinar programação a mulheres cis e transgênero que não têm recursos ou oportunidades para aprender a programar. Além de dar aulas, a instituição conecta as mulheres com o mercado de trabalho por meio de mentorias e parcerias com a iniciativa privada. 

Desde o seu surgimento, foram 16 turmas e cerca de 428 mulheres impactadas. Segundo Reyes, 90% das ex-alunas estão atuando no mercado de tecnologia. No final de fevereiro, o Banco Itaú anunciou a contratação de 22 ex-alunas formadas pela instituição.

Sou muito otimista em relação ao futuro das mulheres no setor de
tecnologia. Acho que as coisas estão melhorando. Há duas coisas que acredito serem muito importantes para que, cada vez mais, o número de mulheres cresça nesse setor: fazer um trabalho de educação de base com meninas na sua primeira infância e pré-adolescência, incentivando e instigando o interesse delas pelas ciências exatas e investir em iniciativas como a {reprograma}, que empoderam e trazem um lugar seguro de aprendizado para que mulheres consigam se inserir na área. 

 

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Michelle Araujo

Com parte da sua carreira dedicada à pesquisa, a arquiteta de softwares Michelle Araujo acredita faltar principalmente às instituições de ensino um melhor trabalho para a inclusão das mulheres no mercado de TI. 

“Existem poucos programas de inclusão de mulheres na tecnologia nas universidades, enquanto a iniciativa privada investe fortemente, seja em hackathons, meetups ou em parceria com grupos de capacitação para mulheres entrarem na área”, opina.

Apesar de destacar o trabalho feito pelas empresas, que, segundo ela, “estão incentivando mais a entrada de mulheres na área de TI”, Araujo acredita que “ainda falta a construção de um ambiente saudável para essas mulheres”. 

“Não adianta ter uma cultura de contratar mais mulheres se os homens que trabalham [na área] continuam com pensamentos machistas”, completa.

Nina Silva

Formada em administração, Nina Silva demorou muito pouco para mergulhar na tecnologia da informação. Em seu primeiro estágio, depois de participar da implantação de um sistema ERP na empresa em que atuava, se interessou pela área e nunca mais a deixou. 

A opção foi acertada: Silva é hoje um dos nomes mais destacados do empreendedorismo negro e feminino brasileiro. Foi consultora e gerente de projetos de empresas de grande porte, trabalhou fora do país, até fundar o Movimento Black Money, que busca a inserção e a autonomia da comunidade negra na era digital, com iniciativas de educação, empreendedorismo e educação financeira.   

Foi eleita uma das mulheres mais influentes do país pela revista Forbes em 2019 e escolhida uma das 100 pessoas afrodescendentes mais influentes do mundo com menos de 40 anos pela Mipad (Most Influential People of African Descent), em 2018, iniciativa ligada à ONU.

Vejo que o mundo está atrasado quando se fala em equidade de gênero. Se falarmos de equidade de raça, podemos esquecer, porque as pessoas não querem nem discutir sobre isso. Falo sobre equidade, não igualdade. Não precisamos buscar igualdade, as pessoas não são iguais. Se eu busco igualdade, deixo de fazer intencionalmente trabalhos para que as pessoas cheguem de maneira equânime na mesma situação. Não posso dar as mesmas oportunidades para homens e mulheres, porque partimos de lugares diferentes na história.

 

Silva é outro exemplo de empreendedora que enfatiza o trabalho em comunidade e a interseção das iniciativas para promover a inserção das mulheres na área de TI.

“Sou parceira de algumas iniciativas, como a {reprograma}, onde sempre dou aulas magnas. Também sou parceira do Programa ELAS, de liderança feminina, onde faço participações especiais”, conta. “Estou sempre aberta a apoiar e promover nas minhas redes e nos lugares em que palestro todos os programas que auxiliam a essa democratização.”

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Tatiana Scarpioni

Outra integrante do Cloud Girls, a arquiteta técnica Tatiana Scarpioni soma 20 anos de experiência no mercado de TI, com empresas como IBM e Oracle no currículo. 

Como muitas das mulheres entrevistadas pelo Capterra, começou aprendendo na prática e criando suas próprias oportunidades. 

“Meu primeiro emprego não era em TI. Trabalhava numa empresa de atendimento ao consumidor, mas vi uma oportunidade de informatizar/automatizar muitos processos e assim me tornei responsável pela área de TI dessa empresa”, conta. 

Vejo que hoje em dia as empresas têm entendido cada vez mais a importância da diversidade para os negócios. Já existem dados que comprovam o aumento nos lucros [com mulheres na equipe]. Fora a diversidade de pensamento que promove um ambiente inclusivo para todos. Em muitas empresas existem programas de mentoria para mulheres, o que é de extrema importância para a carreira de todas nós.

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