70% dos trabalhadores de PMEs em home office relataram sintomas de burnout

Publicado em 18/05/2021 por Marcela Gava

A pandemia de COVID-19 tem obrigado empresas a repensarem diversas práticas; entre elas, encontrar maneiras de prevenir o esgotamento profissional. 

Trabalhadores brasileiros relatam sintomas de esgotamento profissional

Transtornos de saúde mental já eram uma realidade na vida dos brasileiros antes mesmo da pandemia de COVID-19. Isso porque o Brasil é o país com o maior índice de depressão da América Latina e o primeiro na lista dos países mais ansiosos do mundo –mais de 19 milhões de brasileiros sofrem com problemas de ansiedade. 

O que já era preocupante se agravou após o início da pandemia. Uma pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) mostrou que os casos de depressão dobraram e os sintomas de estresse e ansiedade aumentaram 80% com a crise sanitária. Não à toa, as concessões de auxílio-doença no país por motivo de transtornos mentais aumentaram 33,7% de 2019 para 2020. 

Estes números falam do Brasil como um todo, entretanto a tendência se repete quando olhamos a partir de outras perspectivas. 

Em nova pesquisa, o Capterra se debruçou na análise do bem-estar no ambiente de trabalho de pequenas e médias empresas (PMEs), entrevistando 418 profissionais de todo o país que migraram para o trabalho remoto como consequência da pandemia (acesse a metodologia no final do texto). 

Segundo o levantamento, sete de cada dez funcionários de PMEs disseram já terem experimentado algum sintoma de burnout no trabalho após migrarem para a modalidade remota, com a disseminação do novo coronavírus.

Síndrome de burnout

O Ministério da Saúde define a síndrome de burnout –também conhecido como síndrome do esgotamento profissional– como um problema emocional ocasionado pelo ambiente laboral, em que o funcionário pode experimentar sintomas como insônia, depressão, pressão alta, dores musculares, dores de cabeça, entre outros. 

O distúrbio aparece como resultado de situações constantes de estresse, excesso de trabalho, pressão e desgaste, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a classificá-lo como um transtorno ocupacional. A instituição incluiu o burnout na sua Classificação Internacional de Doenças em 2019.

Das pessoas que identificaram sintomas de burnout, 2% relataram esgotamento extremo e 10% disseram ter passado por um cansaço significativo. Já 25% experimentaram sintomas moderados e 33% tiveram esgotamento leve. Apenas 30% disseram que não apresentaram nenhum sintoma.

Quando questionados que tipo de sintomas experimentaram regularmente desde que iniciaram no home office, a maioria dos entrevistados queixou-se de dores de cabeça (41%), seguido por dificuldade de concentração (37%) e problemas de sono (34%) –os três são típicos de quadros de burnout.

Os mal-estares do home office

Tal cenário exige que as PMEs adaptem sua estrutura para dar mais atenção à saúde mental no trabalho, oferecendo como benefício programas de ajuda psicológica e incentivos a atividades físicas e de bem-estar –atualmente, existem plataformas que prestam serviços a outras empresas oferecendo programas para cuidados da saúde mental de seus funcionários.  

Especificamente em relação à gestão do capital humano, sistemas de recursos humanos podem ser úteis para o armazenamento organizado e seguro de documentos, como baixas médicas, e também para promover avaliações de clima organizacional, medindo a percepção do trabalhador sobre o ambiente interno. 

Nota: o estudo do Capterra não aborda casos relatados de burnout no trabalho. Nesta pesquisa, os funcionários estimam seu grau de exaustão sem nenhum diagnóstico oficial ou autoteste.

Separação da vida profissional e pessoal

Se na rotina “normal” já havia quem considerasse complicado desconectar do trabalho assim que terminava o expediente, no home office o desafio se intensificou. 

Na pesquisa do Capterra, a falta de separação entre a vida profissional e pessoal foi a queixa mais citada (66%) pelos entrevistados, que declararam estar mais estressados trabalhando a partir de casa. Tal cenário pode enfatizar o esgotamento profissional. 

Os profissionais citaram ainda outros gatilhos para o aumento de stress, conforme o gráfico abaixo:

Saúde mental no trabalho e o aumento do stress

A falta de separação entre o âmbito laboral e pessoal fica ainda mais evidente quando se nota que as práticas negativas realizadas pelos funcionários no trabalho presencial aumentaram de frequência no trabalho remoto: 

A diferença de frequência entre trabalho remoto vs. trabalho presencial

Com exceção da categoria “Usar dispositivos da empresa para assuntos pessoais”, todas as outras registraram um aumento significativo no home office. 

Alguns dos dados mais críticos estão relacionados à invasão do espaço de descanso do empregado. É o caso de responder imediatamente mensagens relacionadas ao trabalho (citado por 80% dos funcionários em home office) e responder ligações antes ou depois do expediente –72% disseram que fazem isso.

Estas informações comprovam que, mesmo antes ou depois do expediente, nos horários que deveriam estar reservados para si, os funcionários continuam não apenas mentalmente conectados às suas tarefas, mas também executando-as. Esta prática pode afetar diretamente a saúde mental do trabalhador. 

Especialistas destacam a necessidade de respeitar as pausas ao longo do dia, reforçando que é preciso delimitar horário para começar, pausar e terminar a rotina de trabalho, já que o organismo humano necessita cumprir seu ciclo de atividade e repouso. Além disso, para que o profissional tenha qualidade de vida, o trabalho não deve ser a única atividade do seu dia –a empresa, obviamente, também deve ser responsável por partilhar este mindset. 

Quando os membros da equipe estão sempre prorrogando prazos de entrega e têm de responder e-mails fora do expediente, é provável que exista um problema na organização das tarefas. 

Para auxiliar na criação de uma agenda programática e estabelecer prioridades, vale a pena implementar ferramentas de gestão de projetos. Dessa maneira, além de ter uma visibilidade das atividades e do tempo dispensado em cada uma delas, elimina-se a prática de cobrar entregas em momentos inapropriados.

Risco à segurança digital das PMEs

O hábito negativo mais frequente –“Usar dispositivos pessoais para funções do trabalho”–, citado por 89% dos respondentes, merece atenção especial. 

Isso não somente evidencia a falta de separação entre a vida pessoal e profissional dos trabalhadores, como também expõe o risco de vazamentos de dados das empresas, já que o computador pessoal do funcionário pode não ter antivírus nem outros programas de proteção instalados e atualizados. 

Para evitar ataques cibernéticos, é recomendado que as empresas cedam equipamentos eletrônicos às suas equipes e instalem softwares de cibersegurança, sistemas de segurança de rede e softwares de autenticação.

Líderes brasileiros são os que mais se importam com a saúde mental do trabalhador

Na pesquisa do Capterra, um dado traz otimismo para o mercado de trabalho brasileiro: 60% dos entrevistados disseram que foram abordados por seus chefes para falar de seu bem-estar mental. Trata-se de um passo importante para reduzir casos de síndrome de burnout no ambiente de trabalho.

A soma se refere aos funcionários em home office contatados diretamente (por reunião individual) e indiretamente (por e-mail em grupo ou pesquisa online), como detalha o gráfico a seguir:

Como superiores lidaram com a saúde mental do trabalhador

Em comparação com outros mercados em que o Capterra também está presente, o Brasil foi o país em que os líderes mais tomaram iniciativa de contatar seus subordinados. 

A taxa mais próxima à do Brasil é a dos Estados Unidos. No país norte-americano, 53% dos empregados disseram ter recebido contato da liderança. 

No entanto, outros países seguiram um caminho bastante diferente, especialmente Alemanha (39%) e Itália (31%), que registraram o menor índice de abertura de diálogo com os empregados.

Como líderes no mundo lidaram com a saúde mental do trabalhador

Iniciativas e discussões acerca da saúde mental no trabalho –e fora dele– já parecem começar a ser pauta nas empresas e no País como um todo.

Exemplo disso é o movimento #MenteEmFoco; apoiado pela Rede Brasil do Pacto Global da ONU, o projeto promove a saúde mental no meio corporativo através de uma série de compromissos que as empresas signatárias devem aplicar em seus ambientes. Ter um profissional para dar orientações e criar ações anti estigma são algumas das ações propostas.

Por fim, não se pode esquecer que o tema da redação do último Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) foi justamente o estigma de doenças mentais na sociedade brasileira, o que levou jovens do País inteiro a refletir sobre o tema e sua importância.

Como desenvolver boas práticas de saúde mental no trabalho –e evitar o esgotamento profissional

Um ambiente que se preocupa com o bem-estar do funcionário se trata menos de disponibilizar máquina Nespresso ou mesa de sinuca no escritório, e mais sobre ações práticas que envolvam escutar e acolher as demandas dos trabalhadores. 

Sabe-se que acessar informações acerca da saúde mental dos funcionários é difícil, pois esbarram em questões éticas e de não invasão à privacidade alheia. Por isso é importante criar espaços seguros para que os empregados se sintam à vontade para abordar as questões que os afetam, sem tabus.

A seguir, confira quatro ações que podem beneficiar o bem-estar dos funcionários.

Orientação 

Ajude sua equipe a delimitar vida pessoal e profissional. Informe sobre pausas durante o expediente e exercícios físicos para aliviar o cansaço, que podem ser inseridos como uma atividade na própria ferramenta de gestão de tarefas

No caso do home office, oriente o trabalhador sobre a separação de um canto da casa para usar como escritório e, mais importante, considere oferecer ajuda de custo para a criação do espaço, incentivando o uso de equipamentos como cadeira de escritório, aparelhos ergonômicos (apoio de pé e suporte regulável para notebook) e fone de ouvido anti ruídos, que podem melhorar a qualidade do trabalho remoto.  

Escuta

O estudo do Capterra indicou que apenas 8% dos empregados brasileiros de PMEs tomaram a iniciativa de falar com seus gerentes sobre questões de bem-estar mental.

O dado indica que eles podem se sentir desconfortáveis e sem espaço para dar o primeiro passo. Portanto, crie maneiras para que sua equipe seja ouvida pela liderança e por seus colegas. 

Uma dica é empregar na rotina um software de feedback 360 graus. Trata-se de um sistema para o funcionário relatar situações, além de dar e receber feedbacks tanto em relação à gerência quanto sobre seus pares. 

Já os softwares de gerenciamento e avaliação de desempenho são aliados na gestão de reuniões 1:1 (one-on-one), onde os funcionários têm um encontro individual para comentar suas necessidades e objetivos aos chefes e estes, em contrapartida, podem orientá-los.

Interação

O trabalho em conjunto entre membros da equipe é parte fundamental da rotina nas organizações, uma vez que estimula a criatividade e a boa convivência. 

Para manter esta dinâmica no home office, promova videochamadas entre os funcionários, organizando reuniões semanais não apenas para falar de tópicos do trabalho, mas também para bater um papo descompromissado —softwares de videoconferência ajudam na qualidade da chamada e sistemas de gestão de ideias deixam o brainstorm mais interativo. 

Bem-estar

O treinamento de pessoal não precisa estar restrito ao aprendizado de um novo software, por exemplo. As empresas podem inserir outras atividades como parte do programa de desenvolvimento. Práticas como meditação, yoga, ginástica laboral e aconselhamentos para gerenciamento de stress são algumas dessas atividades que influenciam diretamente na qualidade de vida do funcionário. 

No home office, ferramentas para webinar ajudam a multiplicar o treinamento para membros da equipe que podem não estar presentes fisicamente no dia agendado.

Além disso, adicionar incentivo para terapia como parte do pacote de benefício é uma forma de estimular os funcionários a buscar auxílio psicológico.

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Metodologia:

Para reunir os dados presentes na pesquisa Recursos Humanos na nova era: trabalho remoto e bem-estar, o Capterra realizou um levantamento online entre os dias 13 e 18 de janeiro de 2021 em que ouviu 994 trabalhadores de pequenas e médias empresas que possuíssem entre 2 e 250 funcionários. 

Especificamente para este artigo, foram utilizadas as respostas de 418 entrevistados que migraram para o home office como consequência da pandemia de COVID-19. 

A amostra é composta da seguinte forma:

  • Faixa etária: pessoas maiores de 18 anos; 
  • Gênero: 50% do sexo feminino e 50% do sexo masculino;
  • Local: todas as regiões do Brasil, com a maioria vivendo em área urbana (90%). 

Os respondentes de outros países foram selecionados usando os mesmos critérios. Abaixo está a quantidade de participantes em relação aos dados usados neste artigo, dividido por país. Este número leva em consideração apenas os funcionários que migraram para o home office.

  • Alemanha (299)
  • Canadá (303)
  • Espanha (285)
  • Estados Unidos (279)
  • França (227)
  • Holanda (387)
  • Itália (257)
  • Reino Unido (422)

Em todos os países analisados os resultados são representativos da pesquisa, mas não necessariamente da população como um todo.

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