Maior parte da população é entusiasta da versão digital do Real

Publicado em 26/11/2021 por Marcela Gava

Após investigar a adoção das criptomoedas como opção de investimento, neste segundo artigo da série o Capterra aborda a opinião dos brasileiros acerca da circulação do Real Digital como moeda oficial e o uso de criptomoedas como um método de pagamento.

Maioria dos brasileiros é receptiva ao real digital, do Banco Central

Parece que o Brasil está prestes a chegar ao fim da hegemonia do dinheiro, tal o conhecemos, em notas e moedas em espécie. Não apenas porque as discussões sobre a implementação do Real Digital se encontram avançadas, como veremos a seguir, mas também porque a população já se mostra receptiva ao uso digital da moeda oficial brasileira. 

Nesta segunda parte da pesquisa do Capterra sobre criptomoedas, os dados indicaram que 6 de cada 10 brasileiros acreditam que uma moeda digital emitida pelo Banco Central (BC) seria algo bom para si e para a economia de um modo geral. Trata-se de uma versão do Real que também poderia ser usada em operações offline e online.

No levantamento, foram ouvidas 999 pessoas de todo o País, que investem ou não em criptomoedas, e com diferente grau de conhecimento sobre o assunto (confira a metodologia completa no final do texto). 

Uma introdução sobre o Real digital

Atualmente, no Brasil, está em pauta uma série de discussões acerca da criação e consequente implementação da moeda digital brasileira, chamada de Real Digital. 

Segundo o BC, o Real Digital seria uma espécie de CBDC, e não uma criptomoeda. Isso significa que a distribuição do Real Digital seria intermediada por instituições financeiras oficiais, com garantia de privacidade e segurança.

O BC emitiria no formato digital o mesmo Real emitido em cédulas, o que pode ajudar a diminuir os custos de geração da moeda física e criar um sistema monetário mais eficiente para o Brasil. Isso influencia diretamente na gama de tipos de pagamentos que os negócios podem aceitar via sistema de pagamentos para transações comerciais.

O que é uma CBDC?

 O termo CBDC (Central Bank Digital Currency, ou “moeda digital do Banco Central” em tradução ao português) define as versões digitais de moedas fiduciárias.

O que muda em relação às moedas tradicionais é sua forma de emissão, que só existe no digital e não exige a impressão de moedas em espécie. No entanto, outras particularidades se mantêm iguais às moedas físicas: as CBDCs são regulamentadas oficialmente, rastreáveis e estáveis.

Pelo mundo, cerca de 50 bancos centrais discutem o lançamento de uma CBDC, sendo as Bahamas o primeiro país a lançar uma CBDC, o sand dólar (“dólar de areia”, em português).


No entanto, é importante destacar que, mesmo que se mostrem entusiastas da moeda brasileira digital, 70% dos respondentes da pesquisa do Capterra demonstraram algum tipo de preocupação com o lançamento de uma CBDC brasileira.

São minoria (20%) as pessoas que veem a questão sem nenhuma preocupação, como descrito no gráfico abaixo. 

Brasileiros têm receios acerca da implementação de uma CBDC

Se aceitas oficialmente, 75% dos brasileiros passariam a se interessar por criptomoedas 

Embora pareça que estejamos falando de um mesmo conceito, é importante esclarecer que CBDC e criptomoedas se referem a conceitos diferentes. 

Enquanto a primeira possui validade jurídica e é reconhecida por Bancos Centrais, a segunda não é regulamentada por órgãos oficiais, são instáveis (podem valorizar ou desvalorizar rapidamente) e possuem transações registradas em blockchain. 

O conceito de blockchain

Em seu glossário de termos tecnológicos, a Gartner define
blockchain (conteúdo disponível em inglês) como um livro de registro de transações compartilhado por participantes de uma mesma rede.

Cada registro, que é formado por códigos, contém um histórico de período de tempo e links de referência das ações realizadas anteriormente, sendo eles os responsáveis por mostrar os dados das transações de criptomoedas.


Na pesquisa do Capterra, 7 de cada 10 brasileiros demonstraram interesse por criptomoedas, em algum nível, se elas fossem aceitas juntamente da moeda local no Brasil. 

Brasileiros estão interessados em criptomoedas como moeda local

 Esse número possui flutuação de acordo com a faixa etária do entrevistado. Por exemplo, respondentes de 36 a 55 anos são os que se mostraram mais entusiastas das criptomoedas como uma moeda local –38% dos entrevistados desse grupo se definiram como “totalmente interessados”.

 No entanto, para poder circular como uma moeda fiduciária, as criptomoedas devem reunir algumas funções. Uma delas é ser usada como medida para cotação de preços; mas, para essa finalidade, esbarra-se no fato de que a maioria das criptomoedas são cotadas em moedas estrangeiras, como o dólar, o que dificulta a determinação de quanto custam itens básicos, como um pacote de leite, em criptomoedas, segundo explica um economista

Além disso, embora a Receita Federal tenha criado na declaração do Imposto de Renda um código específico para Bitcoin, Altcoins (como Ethereum) e outros criptoativos, as criptomoedas não são reconhecidas juridicamente como uma moeda pelo BC. No entanto, existem iniciativas da Câmara e do Senado que propõem regulamentações para definição de regras de atuação.

 Outro ponto a se adicionar nesta discussão é a opinião do BC em relação às criptomoedas. Em declaração de maio de 2021, o coordenador dos trabalhos sobre a moeda digital do BC, Fábio Araújo, deu uma amostra do posicionamento do órgão em relação às criptomoedas. 

Segundo o coordenador, as criptomoedas se categorizam como ativos, e não possuem características de uma moeda. Ele ainda adicionou que se tratam de investimentos arriscados, alertando que devem ser tratados com cautela.

Apesar de as instituições tratarem o tema com certa precaução e receio, a população, por sua vez, já visualiza um futuro que inclua criptomoedas no seu dia a dia. 

Nos próximos 5 anos, 40% dos respondentes da pesquisa do Capterra veem as criptomoedas como seu padrão de moeda ideal. 

Vale destacar que o ativo financeiro aparece na frente da possível moeda digital do BC, que foi citada em segundo lugar (29%), e só então as moedas fiduciárias entram em jogo (17%), apoiadas pela minoria dos entrevistados. 

Abaixo, o Capterra listou quais os principais setores que os respondentes gostariam de usar criptomoedas para realizar transações.

Lista de atividades financeiras que as pessoas realizaram com criptomoedas  

71% confiam em criptomoedas para pagamentos online

No levantamento do Capterra, os participantes foram solicitados para opinar sobre a sua confiança no uso das criptomoedas para diferentes situações. Para todas as categorias analisadas, as criptomoedas possuem um índice de confiança que supera os 50%, conforme mostra o gráfico abaixo:

Confiança nas criptomoedas para diferentes atividades financeiras

 A categoria que as pessoas mais possuem confiança em criptomoedas é no pagamento online seguro para lojas ou instituições, já que 71% dos entrevistados disseram confiar no ativo para este tipo de ação (40% selecionaram “confio um pouco” e 31% declararam que “confiam plenamente”).

 Este resultado é interessante porque mostra que o pagamento em criptomoedas tem boa reputação antes mesmo de ele se tornar uma opção popularizada de método de pagamento em lojas do varejo. 

Vale lembrar que, no caso do sistema de pagamentos instantâneo Pix, pesquisa recente do Capterra mostrou que o método já usufruía de boa reputação entre os usuários; entretanto, esse nível de confiança foi alcançado sete meses após a implementação do sistema, quando boa parte da população já havia tido a oportunidade de testá-lo.  

 Iniciativas como Mapa Bitcoin e Bitmapa reúnem empresas ou profissionais autônomos que aceitam pagamentos em Bitcoin, a criptomoeda mais popularizada no mundo.

Contudo, ao navegar pelos sites é possível notar que a adesão às criptomoedas como métodos de pagamento ainda não é grande. A primeira iniciativa, o Mapa Bitcoin, conta com 456 empresas cadastradas. Para se ter uma ideia, na plataforma DataSebrae, que reúne a quantidade de pequenas e médias (PMEs) que existem no país, constam cadastros de quase 20 milhões de negócios. 

Já na segunda iniciativa (Bitmapa), ao se buscar um estabelecimento em São Paulo que ofereça opção de pagamento em Bitcoin, há apenas 20 empresas cadastradas –o mesmo DataSebrae mostra que existem quase 6 milhões de PMEs na capital paulista.

 No caso dos marketplaces, que frequentemente funcionam como um canal de vendas online para PMEs, embora empresas como B2W (responsável pelo marketplace Americanas.com) e Magalu estejam apostando em soluções próprias de pagamento, não há nenhum registro acerca da aceitação de transações em criptomoedas pelos varejistas cadastrados em suas plataformas. 

Portanto, empreendedores devem ainda priorizar sistemas de pagamentos que já desfrutam de alta credibilidade no mercado, como cartões de débito e crédito, transferência via Pix, carteiras digitais e boleto digital.  

Usando a tecnologia para diversificar seus métodos de pagamento

As PMEs em busca de diversificação de métodos de pagamento podem implementar ferramentas como sistemas de pagamento ou sistemas de pagamento por celular para gerenciar e processar recebimentos de vários tipos –algumas ferramentas, inclusive, até permitem aos usuários processar pagamentos em criptomoedas.

Confiança nas criptomoedas se aproxima à de bancos tradicionais

Ainda sobre a confiança em criptomoedas, o levantamento do Capterra comparou a taxa de confiança dos respondentes em relação ao ativo digital e a porcentagem em relação aos bancos. 

Não surpreende que a taxa de confiança em bancos ainda seja superior à confiança em criptomoedas, mesmo com as instituições financeiras sendo uma entidade constantemente presente nos rankings relacionados a reclamações de clientes.

 No entanto, surpreende o fato de que a taxa de confiança em bancos não é tão superior assim em comparação à reputação das criptomoedas. Veja o gráfico abaixo:

Comparação de confiança entre bancos e criptomoedas para diferentes atividades financeiras
Nota: a porcentagem mostrada se refere à soma dos respondentes que selecionaram as opções “confio pouco” e “confio plenamente” nas respectivas perguntas sobre o nível de confiança em criptomoedas e bancos para diferentes transações financeiras.

Um dos fatores que fariam as pessoas a continuar entusiastas de bancos pode estar relacionado à questão de segurança, uma vez que os brasileiros se mostraram atentos às atividades criminosas envolvendo as criptomoedas. 

Quando questionados o quão preocupados os brasileiros estão com o uso de criptomoedas em atividades ilegais, 54% dos entrevistados pelo Capterra mostraram algum grau de preocupação com a situação.

Brasileiro se preocupam com atividades ilegais acerca de criptomoedas

Recentemente, dois casos envolvendo fraudes com Bitcoin tomaram conta do noticiário brasileiro. No caso do Grupo Bitcoin Brasil, o proprietário da empresa foi acusado de desvios que chegam até R$ 1,5 bilhão em negociações de compra e venda de criptomoedas. 

Já no caso da GAS Consultoria, a empresa é acusada de criar um sistema de pirâmide financeira ao simular investimentos em Bitcoin. Tais situações e sua disseminação na mídia podem influenciar a percepção da população sobre o uso ou investimento em criptoativos. 

O futuro dos pagamentos no Brasil

Iniciativas implementadas recentemente, como Pix e open banking, mostram que o Brasil consolida no setor financeiro o uso de tecnologias que vão em concordância da própria guinada digital da sociedade.  

Ainda não é certo o uso de criptomoedas e a implementação de uma CBDC no futuro, no entanto, os dados do Capterra indicam uma abertura da população para o uso de moedas digitais. Apesar disso, como apontado acima, é importante recordar que também há um certo receio acerca do uso da nova tecnologia. 

Levando em conta essas particularidades e, uma vez que há um rápido processo de modernização de transações financeiras no Brasil, é importante que empreendedores se informem sobre novas iniciativas para que possam considerar todos os pontos (tanto os benefícios quanto os malefícios) caso optem pela implementação em seus negócios.  

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 Metodologia:

Para reunir os dados presentes neste estudo, o Capterra realizou um levantamento online entre os dias 4 e 5 de outubro de 2021 em que ouviu 999 brasileiros e brasileiras com mais de 18 anos e de todas as regiões do país.

O painel contou com 50% dos entrevistados do sexo feminino e 49% do sexo masculino –1% dos entrevistados optou por autodescrever o seu gênero.

Para participar do estudo, os entrevistados tinham que selecionar se conhecem ou estão familiarizados com o conceito de criptomoedas. Os participantes selecionados responderam “Sei o que é” ou “Tenho algum conhecimento” sobre criptomoedas e validaram seu conhecimento em uma questão subsequente.

Os resultados são representativos da pesquisa, mas não necessariamente da população como um todo.


NOTA: Este artigo pretende informar nossos leitores sobre temas relacionados a atividades empresariais no Brasil. Não se destina, em nenhum caso, a fornecer assessoramento financeiro nem a incentivar uma tomada de ação. Para aconselhamento sobre sua situação específica, consulte seu assessor financeiro.

Esse artigo pode se referir a produtos, programas ou serviços ainda não disponíveis em seu país, ou pode ter restrições legais ou regulatórias. Sugerimos que você consulte o provedor de software diretamente para informações sobre disponibilidade do produto ou conformidade com as leis locais.

Sobre o(a) autor(a)

Analista de conteúdo do Capterra, cobre as tendências de tecnologia e inovação. Jornalista com mestrado em comunicação pela UAB, de Barcelona. Gosta de criar playlists aleatórias.

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