Vigilância: mais da metade dos funcionários ouvidos pelo Capterra afirmam ser monitorados no trabalho

Publicado em 19/05/2022 por Marcela Gava

Sistemas de monitoramento vêm sendo implementados pelas empresas –e isso parece não incomodar funcionários. Depois de abordar o uso de tecnologias biométricas, esta segunda parte da pesquisa do Capterra aborda o monitoramento de funcionários e a opinião deles acerca da prática.

O monitoramento de funcionários já é uma realidade nas empresas brasileiras

O uso de ferramentas de monitoramento de trabalho é uma realidade no mercado brasileiro, conforme mostra a nova pesquisa do Capterra sobre a vigilância de atividades dos empregados durante o expediente.

Isso porque cerca de 55% dos funcionários disseram que seu empregador utiliza alguma ferramenta de rastreamento de atividades. Este número é resultado da soma entre a implementação de sistemas de monitoramento realizada antes e depois das restrições decorrentes da crise sanitária.

Vale a pena saber

Os dados do Capterra indicam que a pandemia, período em que muitos profissionais migraram para o trabalho remoto ou híbrido, não acarretou no aumento do uso de sistemas de monitoramento. Antes da implementação das restrições por causa da crise sanitária, 40% dos entrevistados relataram que suas empresas já usavam programas de monitoramento de funcionários. Em menor quantidade, 15% disseram que a empresa em que trabalham implementou os sistemas depois do endurecimento das restrições da COVID-19.

As empresas brasileiras, inclusive, parecem ser as mais motivadas a fazer monitoramento de seus funcionários, já que a porcentagem do Brasil é a mais alta em relação a outros países analisados na mesma pesquisa, conforme mostra o gráfico abaixo:
Pesquisa mostra que o Brasil é o país em que as empresas mais realizam monitoramento de funcionários em comparação a outras quatro nações

O levantamento foi realizado entre os dias 11 e 16 de fevereiro e contou com a participação de 706 funcionários de empresas de todo o Brasil. A metodologia completa está descrita no final do artigo.

Olhando os dados a fundo, as ferramentas de monitoramento de empregados aparecem mais presentes nas empresas brasileiras com mais de 1 mil funcionários, já que 72% dos trabalhadores deste tipo de companhia disseram que seus empregadores fazem uso de um sistema para rastreamento (novamente, foram somados dados referentes à implementação antes de depois da pandemia).

O que é uma ferramenta de monitoramento de funcionários?

O sistema de monitoramento de funcionários é empregado para registrar atividades e informações do trabalhador ao longo da sua rotina laboral.
Diferentes atividades podem ser rastreadas por esse tipo de sistema, como horário de login e logout, tempo ocioso, histórico de acesso a sites, além da possibilidade de realizar vigilância por webcams.

Existem diferentes tipos de solução para o rastreamento disponíveis no mercado –algumas delas são conhecidas como bossware–, de acordo com a atividade que se pretende acompanhar de perto. Exemplos desse tipo de sistema são:
1. Software para monitorar funcionários: pode realizar capturas da tela do trabalhador e mostrar quais sites ou aplicativos foram acessados e por quanto tempo.
2. Ferramentas de gestão de tempo: é capaz de registrar a quantidade de tempo empregada no trabalho em um programa ou em uma tarefa.
3. Software para controle de presença: esse tipo de aplicação registra horas extras e ausências dos funcionários, criando também relatórios de padrões.
4. Software de produtividade: esse programa gerencia a carga de trabalho através de recursos como lista de ações, cronogramas e definição de metas.

Já entre as microempresas, de até 10 funcionários, e as pequenas empresas (de até 50 funcionários) é onde há a menor aparição do uso deste tipo de tecnologia; 63% e 53% das companhias não usam softwares para monitorar empregados, respectivamente.

Por que as empresas implementam ferramentas de monitoramento de funcionários?

À primeira vista, a resposta para esta pergunta parece estar na falta de confiança dos empregadores em relação a seus funcionários, o que pode motivá-los a buscar o que a equipe está fazendo durante o expediente. 

O resultado da pesquisa, no entanto, mostra que não é bem assim. Quando questionados por qual razão acreditavam que a empresa havia implementado a ferramenta de monitoramento, a maioria dos trabalhadores (56%) citou o aumento de produtividade. Apenas em segundo lugar começam a aparecer atividades relacionadas ao controle de trabalho.

Os fatores que motivaram empresas a rastrear funcionários, segundo a opinião destes últimos

A percepção dos funcionários de que o monitoramento serve para “melhorar a produtividade” está bastante conectada ao tipo de atividades que são rastreadas pelas empresas, outro tópico também investigado pelo Capterra. 

Embora o controle de presença (73%), que exploraremos mais adiante, apareça como o principal tipo de vigilância, em seguida se destacam as atividades relacionadas à organização da rotina: gerenciamento da carga de trabalho (51%) e gestão de tempo (47%), conforme mostra o gráfico abaixo. 

Tais atividades podem ser organizadas por meio de softwares de produtividade, o que, como dito, pode estar conectado com o motivo do monitoramento citado pelos funcionários.

Principais atividades monitoradas no ambiente de trabalho

Em relação ao registro de assistência, que pode ser realizado por meio de software para controle de presenças, um fator importante pode explicar por que ele aparece em primeiro lugar. 

O artigo 74 da Consolidação das Leis de Trabalho (CLT) determina que todas empresas com mais de 20 trabalhadores tenham por obrigação a anotação da hora de entrada ou saída do funcionário, em registro manual, mecânico ou eletrônico. Recentemente, o Governo Federal lançou a Medida Provisória 1.108/2022, que ainda deve ser discutida no Congresso Nacional, determinando o controle de horário para profissionais em teletrabalho, mas apenas para aqueles que trabalham por jornada, e não por produção ou projeto.   

O controle do ponto pode ser realizado com sistemas de ponto eletrônico, que, além de fazer o registro da jornada, podem reunir histórico de frequência para salvaguardar a empresa no caso de ações trabalhistas sobre o controle de jornada e pagamento de horas extras.

Qual o nível de conforto dos funcionários com cada atividade passível de ser monitorada?

As atividades rastreadas que as pessoas se sentem “muito confortáveis” em lidar são justamente as que já fazem parte do seu dia a dia: atividades no computador (43%), controle de presença (41%) e gerenciamento de carga de trabalho (40%).

Em poucas situações se nota a diminuição da porcentagem na categoria “muito confortável” e um aumento de “muito desconfortável”.

Um dos únicos casos de mal estar está relacionado ao monitoramento de comunicação digital, em que uma significante proporção de respondentes (29%) se declarou “muito desconfortável”; já para o rastreio do uso de contas pessoais de redes sociais, 26% se declarou “indiferente”.

Vale ressaltar que a maior preocupação das pessoas em relação ao monitoramento de funcionários é a invasão da privacidade pessoal (70%), faz sentido terem citado justamente ferramentas cuja linha entre vida pessoal e profissional pode ser ultrapassada.

Dica de especialista

As empresas que implementam ferramentas de monitoramento de funcionários devem estar adequadas às regras da Lei Geral da Proteção de Dados Pessoais (LGPD), com compromisso de especificar ao funcionário sobre a finalidade do tratamento de seus dados e garantir o consentimento dele em relação à questão. 

A confiança da gerência no trabalho de seus subordinados

Os entrevistados do Capterra tiveram de classificar o nível de confiança de seus superiores referente a quatro situações: 

1- Fazer pausas durante o expediente 

2- Terminar o expediente quando o trabalho estiver concluído

3- Manter o desempenho e a qualidade do trabalho/tarefas

4- Executar tarefas não relacionadas ao trabalho durante o expediente

Em relação às três primeiras situações citadas, a maioria acredita que seus gerentes confiam muito que eles as realizam corretamente. 

Ao mesmo tempo, quase a metade dos entrevistados acredita que seus gerentes desconfiam que eles executam tarefas não relacionadas ao trabalho durante o expediente.

E tudo indica que os profissionais executam, sim, tarefas pessoais no computador do trabalho. Na pesquisa do Capterra, 56% dos entrevistados admitiram fazer tal uso. As principais atividades executadas por eles estão listadas a seguir no gráfico.

As tarefas pessoais executadas pelos trabalhadores no computador corporativo

O uso de equipamentos corporativos para objetivos pessoais parece não estar levando a outra situação: o microgerenciamento. Neste estilo de gestão, os líderes acompanham de perto o trabalho dos funcionários, mas, segundo a maior parte dos entrevistados do Capterra (38%), eles creem estar sendo gerenciados corretamente –apenas 15% consideram que são extremamente microgerenciados.

Ainda assim, 24% disseram que poderiam ter mais autonomia para realizar suas tarefas no dia a dia.

Maioria dos trabalhadores foi comunicado sobre monitoramento

A legislação brasileira não possui regras que permitam ou proíbam o monitoramento de funcionários; no entanto, há decisões judiciais em tribunais de trabalho, com similaridade de casos, que ajudam a orientar a questão.

Dois exemplos ilustram a situação. Em 2020, foi considerada lícita a vigilância por meio de câmeras de monitoramento dentro das dependências de uma empresa, já que o monitoramento não cometia excessos, como a invasão da privacidade dos funcionários. No mesmo ano, em outra decisão de ação trabalhista, que usou mensagens de e-mail corporativo como prova judicial, houve o entendimento de que é possível rastrear o e-mail corporativo dos funcionários.       

Embora e-mails, celulares e computadores corporativos sejam passíveis de rastreamento, é importante que não configure uma invasão de privacidade. Isso porque a Constituição Federal no artigo 5º, inciso X, determina que “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas”, e não respeitá-lo pode acarretar ações cíveis e sanções penais.   

Já que não há determinações específicas na legislação para o rastreamento do trabalhador, cabe ao empregador criar normas que organizem o trabalho do quadro de funcionários. 

Os dados do Capterra mostram que, na hora de comunicar os empregados sobre o monitoramento, as empresas brasileiras parecem estar optando pela transparência, já que a maioria dos entrevistados (91%) foi avisada da vigilância através da sua gerência ou departamento de recursos humanos.

Esse passo, no entanto, aconteceu de diferentes maneiras:

  • 46% receberam treinamento da empresa sobre o assunto e/ou tiveram que assinar acordos de consentimento;
  • 23% foram avisados verbalmente; 
  • 22% receberam comunicações escritas.

Apenas 8% dos funcionários relataram que não foram comunicados sobre o monitoramento. Para se ter uma referência, trata-se de um porcentual inferior ao de países como a França (17%), em que, inclusive, é permitido por lei que os trabalhadores sejam monitorados mediante determinados requisitos, como a comunicação por escrito (conteúdo em francês). 

A maneira como os negócios brasileiros estão lidando com a questão tem gerado uma boa impressão entre os trabalhadores, aumentando a confiança deles nas boas práticas das empresas. 

Tanto é que a confiança dos funcionários nas companhias onde trabalham se mostra alta: 71% creem que sua empresa só realizaria monitoramento dentro da lei.

Curiosamente, quando a análise é feita pensando nas “empresas no Brasil” como um todo, e não considerando apenas a empresa onde cada indivíduo trabalha, o cenário muda: apenas 43% disseram que creem que a maioria das empresas só monitoraria os funcionários dentro das leis.

Boas-práticas para implementação de monitoramento na sua empresa

1. Refletir sobre a necessidade e o tipo de monitoramento a ser empregado (para não realizar indiscriminadamente a vigilância);
2.
Colocar na cláusula do contrato de trabalho a informação sobre vigilância;
3. Esclarecer no regimento da empresa que tipo de monitoramento será realizado;
4. Informar os funcionários que tipos de acesso ou que páginas web serão bloqueados;
5. Abrir um canal de comunicação com o funcionário por meio de software de feedback 360 graus.

Cerca de dois terços dos funcionários brasileiros aceitaram o monitoramento por sua escolha própria

A implementação de sistema de monitoramento de trabalhadores parece ter encontrado pouca resistência entre os funcionários brasileiros que têm suas atividades laborais rastreadas. 

O levantamento do Capterra mostrou que, entre os trabalhadores que foram informados sobre o uso desses sistemas de vigilância, cerca de dois terços (63%) dos profissionais aceitaram o monitoramento porque quiseram, sem sentir pressão do empregador para aceitá-lo. 

Por outro lado, 2 de cada 10 empregados (sendo 4% que aceitaram por pressão e 22% que aceitaram por um pouco de pressão) relataram algum tipo de pressão de suas empresas para concordar com o monitoramento:

Sentimento dos empregados em torno do sistema de monitoramento de funcionários

Das pessoas que declararam não serem rastreadas por seus empregadores, 48% aceitariam ser monitoradas se tivessem a opção de decidir. Do lado oposto, 34% diriam “não” à vigilância de suas atividades. 

Os empregados também foram questionados se, caso a empresa passasse a empregar o sistema de monitoramento, isso seria uma razão para eles mudarem de trabalho. O resultado é que, para 7 de cada 10 empregados (75%), isso não influenciaria sua decisão de mudar ou não de empresa.

Monitoramento não mudou dedicação dos funcionários

A implementação de um sistema de rastreamento de atividades poderia ter efeito direto na maneira que os funcionários trabalham, mas não é o que mostram os números.

Para 65% dos funcionários, ser monitorado não tem ou não teria nenhum impacto na sua dedicação ao trabalho; eles também mostraram que não tem ou não teria impacto na sua motivação (63%), nem na sua ética de trabalho (71%). 

Quando analisam de uma maneira mais macro, levando em conta o ambiente de trabalho como um todo, mais da metade (55%) acredita que mesmo com a implementação de ferramentas de monitoramento o ambiente de trabalho não mudou –para eles, o ambiente não é nem menos nem mais hostil.

No entanto, não se pode ignorar que pouco mais de um quarto (26%) sentem, sim, que o ambiente de trabalho é mais hostil, o que significa que as pessoas podem estar mais estressadas, pressionadas ou argumentativas.

A recepção dos funcionários em relação às ferramentas de monitoramento

Pouco mais da metade das pessoas entrevistadas (55%) pelo Capterra acredita que as ferramentas de monitoramento dos funcionários são positivas para a empresa. Novamente, o Brasil aparece em campo oposto em relação a outros países investigados na mesma pesquisa, em que a maioria crê que o impacto é negativo, conforme evidenciado na imagem abaixo:

O tipo de impacto causado pelas ferramentas de monitoramento no ambiente de trabalho

Como era de se esperar, no Brasil, essa percepção varia de acordo com o nível hierárquico. Pessoas com cargo de gerência são as que mais possuem percepção positiva do monitoramento de funcionários (64%). 

Por outro lado, os funcionários de nível intermediário são os que possuem a percepção mais negativa do monitoramento, que é de 36%, seguidos pelos profissionais de nível júnior (29%). 

Para a maioria dos profissionais, os benefícios do monitoramento de funcionários parecem estar atrelados à possibilidade de reconhecimento de performance. 

Isso porque 51% disseram que, através da vigilância, os empregadores têm mais visibilidade dos funcionários de alto e de baixo desempenho. Além disso, as pessoas também creem que o rastreamento pode comprovar o trabalho realizado, o que aumenta a segurança delas no emprego (50%).

Destaques do estudo

Para facilitar a consulta aos principais pontos levantados pela pesquisa do Capterra, separamos os pontos de destaque:

  • Em comparação com outros quatro mercados em que o Capterra está presente, de acordo com os funcionários, as empresas brasileiras são as que mais empregam ferramentas de monitoramento (55%).
  • 91% dos empregados foram comunicados sobre o sistema de vigilância de suas empresas.
  • Controle de presença é o principal tipo de atividade rastreada pelas companhias (73%).
  • 37% dos funcionários assumiram usar o computador da empresa para checar e responder e-mails pessoais durante o expediente.
  • Para 65% dos trabalhadores, ser monitorado não tem ou não teria nenhum impacto na sua dedicação no trabalho.
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Metodologia

Para reunir os dados presentes neste estudo, o Capterra realizou um levantamento online entre os dias 11 e 16 de fevereiro de 2022 em que ouviu 706 profissionais de todas as regiões do país, de diferentes níveis hierárquicos (excluiu-se proprietários de empresas desta segmentação), que deveriam ser empregados em tempo parcial (12%) ou em tempo integral (88%). Para participar da pesquisa, os entrevistados deveriam trabalhar em uma empresa cujo porte variava entre 2 e mais de 5.000 funcionários. Também, através de pergunta direcionada, garantiu-se que os participantes entendiam do que se trata uma ferramenta de monitoramento dos funcionários. 

A mesma segmentação de participantes foi utilizada nos outros mercados citados nesta pesquisa e que o Capterra também está presente. No entanto, a quantidade de participantes varia de acordo com cada país: Alemanha (708), Canadá (752), França (706) e Reino Unido (744).

Os resultados são representativos da pesquisa, mas não necessariamente da população como um todo.


NOTA: Este documento, embora tenha o objetivo de informar nossos clientes sobre os desafios atuais da privacidade e segurança de dados vivenciados pelas empresas no mercado, não se destina a fornecer assessoria jurídica nem endossa uma tomada de ação. Para aconselhamento sobre sua situação específica, consulte seu assessor jurídico.

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Sobre o(a) autor(a)

Analista de conteúdo do Capterra, cobre as tendências de tecnologia e inovação. Jornalista com mestrado em comunicação pela UAB, de Barcelona. Gosta de criar playlists aleatórias.

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