Mercado de crédito de carbono: entrevistamos dois especialistas em sustentabilidade

Publicado em 26/07/2022 por Marcela Gava

Os créditos de carbono estão ganhando mais espaço entre as empresas. Mas você sabe como funciona essa ação? Trouxemos dois especialistas para esclarecer essa e outras questões sobre sustentabilidade.

Respondemos as principais dúvidas sobre mercado de crédito de carbono

Com o risco da temperatura do planeta aumentar 2,7 graus Celsius neste século, a possibilidade de a Amazônia entrar em um ponto de não retorno e a possível Sexta Extinção da espécie podendo já estar em curso, as notícias sobre o futuro do planeta não são nada otimistas.

Algumas pessoas já se tocaram dos perigos e já tomaram algumas medidas no seu dia a dia. 

Mas e as empresas? Como tem lidado com a questão da sustentabilidade?

A verdade é que algumas já até fazem gestão de resíduos ou investem em reciclagem. No entanto, há outras maneiras (e até mais atuais) de lidar com a sustentabilidade no ambiente corporativo –investir em créditos de carbono pode ser uma delas. 

Neste artigo, o Capterra conversa com especialistas na questão da sustentabilidade: Vanessa Pinsky, especialista em sustentabilidade e estratégias de inovação e eleita LinkedIn Top Voice 2021 em Sustentabilidade, e Fernando Beltrame, presidente da consultoria em sustentabilidade ECCAPLAN e idealizador da plataforma Carbon Fair. Nosso objetivo é entender o que são créditos de carbono, como as empresas podem investir e outras estratégias em prol da sustentabilidade disponíveis no mercado. 

Qual a relação entre meio ambiente e empresas?

Virou praxe que o assunto de desenvolvimento sustentável passasse a figurar em jornais ou revistas especializados em questões empresariais. Vanessa Pinsky explica que a agenda ESG (Ambiental, Social e Governança) avançou muito a partir de 2020 em alguns setores.

A agenda ESG avançou muito desde 2020

Segundo ela explica, vários fatores convergentes levaram à priorização da agenda ESG, entre eles, os últimos três relatórios de riscos globais do World Economic Forum (página em inglês), a integração da agenda ESG pela gestora de ativos financeiros BlackRock e a própria pandemia de COVID-19 com suas múltiplas crises convergentes (sanitária, social, ambiental, econômica, política, geopolítica e de democracia).

Não obstante, ainda há mais outros fatores, de acordo com a especialista, como a crescente percepção de líderes e empreendedores sobre os problemas complexos e sistêmicos da crise planetária, como as mudanças climáticas, perda de biodiversidade, escassez de recursos, desigualdade e pobreza. “A priorização da saúde e do bem-estar humano na tomada de decisão emerge como uma prioridade para as empresas engajadas no Capitalismo Consciente“, afirma.

E, por último, também há a questão de novas tendências de consumo e de comportamento na busca das pessoas por produtos e serviços mais sustentáveis, o que acaba direcionando estratégias de longo prazo de algumas empresas.

Nesse contexto, vale lembrar que pesquisa encabeçada pelo Capterra mostrou que 7 de cada 10 entrevistados disseram que as ações sustentáveis de uma empresa os influencia, em algum grau, quando escolhem produtos ou selecionam fornecedores, sendo comida e bebida os principais tipos de produto que a sustentabilidade mais pesa na hora de realizar a compra. 

O engajamento em prol do meio ambiente também se estende às PMEs?

Uma rápida busca no Google mostra que as vinte empresas mais poluidoras do mundo são, no geral, grandes corporações da área de produção de combustíveis fósseis. Embora pequenas e médias empresas (PMEs) não entrem nessa conta, cada vez mais os danos no meio ambiente tem mostrado que a preocupação com ESG pode ser de todas as empresas.  

De acordo com com Vanessa Pinsky, todas as empresas, independentemente do porte ou da área de atuação, podem e devem empreender esforços para reduzir seus impactos e externalidades ambientais. 

União de diversos setores é fundamental para conter o avanço da crise climática

Outro ponto importante é que as empresas estendam o engajamento para fora das instalações, também avaliando os níveis de sustentabilidade de seus fornecedores e incentivando seus clientes em prol da sustentabilidade. 

Entre diversas estratégias possíveis, as emissões também podem ser compensadas com o apoio a projetos ambientais auditados, que possuem créditos de carbono, conforme abordaremos em seguida. 

4 tipos de software que ajudam a viabilizar ações sustentáveis

Em termos do uso de tecnologia em prol da sustentabilidade, as empresas têm a opção de investir nessas categorias:

Softwares de sustentabilidade: ajudam a organizar dados de suas operações para medir o impacto da empresa no meio ambiente.
Softwares ESG: coletam automaticamente dados e são capazes de gerar relatórios relacionados às iniciativas ambientais, sociais e de governança.
Sistemas de gestão de energia: colaboram com o acompanhamento da eficiência energética e ajudam na redução do consumo.
Ferramentas de controle de emissões: são capazes de fazer cálculos automáticos de CO2 e ajudam no planejamento de redução de emissões.

Entendendo o conceito: o que é crédito de carbono?

O crédito de carbono funciona como um certificado de não emissão de CO2 na atmosfera, servindo como moeda de negociação em diferentes contextos onde há interesse em reduzir emissões de poluentes. No mercado de carbono, um crédito é equivalente a uma tonelada de CO2 que deixa de ser emitida.

O conceito nasceu em 1997 com o Protocolo de Kyoto, quando os países desenvolvidos colocaram metas para a redução das suas emissões de gases causadores do efeito estufa. Quando um país chega ao seu objetivo de redução de emissões, ele passa a gerar créditos de carbono e pode negociá-los com outras nações que não alcançaram seus objetivos.

O mercado de carbono no Brasil

No Brasil, o comércio de créditos de carbono opera pelo chamado mercado de carbono voluntário, o que significa que ele é encabeçado por empresas, organizações e pessoas que geram ou compram créditos.

Isso acontece porque no país, até pouco tempo atrás, não havia ainda nenhuma legislação que regulamentasse a questão. No entanto, em maio de 2022, houve a publicação do decreto 11.075/2022 que define o conceito de crédito de carbono e tem como objetivo regular o mercado.

A estimativa é que o Brasil, por ser detentor de uma floresta tropical e possuir grande possibilidade de desenvolvimento de energias renováveis, possa movimentar 100 bilhões de dólares até 2030 com esse mercado. 

Esse modelo de comercialização também foi empregado no contexto corporativo, já que muitas empresas têm dificuldade em diminuir ou zerar as emissões de carbono, adotam a opção de comprar créditos para equilibrar suas emissões. A compra e venda de créditos pode estar relacionada com projetos de reflorestamento e agricultura regenerativa, por exemplo.

Como as empresas podem investir em créditos de carbono?

Se sua empresa realiza entregas de produtos com veículos de combustíveis fósseis, essa atividade já vem atrelada à emissão de poluentes. Portanto, é indicado como primeiro passo, antes de investir em créditos de carbono, que as empresas tenham consciência de suas emissões para então identificar o impacto que estão gerando no meio ambiente. 

Contar com a ajuda de uma consultoria especializada para realizar a avaliação de emissões ou empregar ferramentas de controle de emissões são duas maneiras de calcular a quantidade de emissões de carbono.

Além das próprias emissões relacionadas às atividades da empresa, também é importante analisar as emissões relacionadas às matérias-primas, como aquelas provenientes de fornecedores, e as geradas pelo consumo de eletricidade da empresa.

Segundo Fernando Beltrame, na hora de selecionar um projeto de compensação de carbono, é importante verificar especialmente alguns pontos, como a transparência e a rastreabilidade dos créditos de carbono.Nesse sentido, uma pesquisa de antemão parece ser fundamental para fazer um investimento correto. 

“Muitas plataformas de compensação emitem certificados de compensação de carbono, porém não mostram que efetivamente estes créditos foram utilizados –aposentados ou inutilizados– para compensar as suas emissões de CO2”, explica Beltrame. Outro fator levantado por ele é a credibilidade dos projetos ambientais apoiados.

A importância de avaliar os benefícios de cada projeto a ser apoiado

Por fim, Beltram também destaca a importância de observar a validade da própria plataforma, que deve incluir projetos ambientais auditados. “Existem diversas plataformas de registro dos créditos [recurso que valida o crédito de acordo com padrões internacionais], inclusive algumas divulgam que possuem créditos mas muitas vezes são gerados de forma duvidosa.” 

Os impactos do investimento em sustentabilidade pelas empresas

Além de garantir a preservação do meio ambiente ao mesmo tempo em que se consolidam como empresas responsáveis e éticas, as companhias que investem em ações sustentáveis também podem visualizar um aumento pela busca por seus produtos ou serviços.

“Inegavelmente, os consumidores estão pressionando as empresas a serem mais ecológicas e responsáveis”, explica Fernando Beltrame. Para ele, a melhor forma de as empresas obterem vantagem competitiva neste processo é diferenciar-se dos seus concorrentes, optando por um esquema de rotulagem que indique o seu compromisso ecológico, por exemplo.

Estratégias para empregar ações de sustentabilidade

Beltram cita uma pesquisa da consultoria norte-americana Union + Webster que apontou que no Brasil 87% dos entrevistados preferem comprar produtos e serviços de empresas sustentáveis.

Segundo ele, atualmente as organizações de prestação de serviço já estão usando da sustentabilidade dentro de suas interações com o cliente para melhorar sua imagem e se posicionar no mercado. “Cada dia se nota uma maior interação das empresas em causas ambientais e sociais visando se integrar às demandas do mercado internacional”, exemplifica. 

E não só apenas em relação ao consumo a sustentabilidade exerce uma influência. Na série de estudos do Capterra sobre sustentabilidade, 73% dos entrevistados disseram que o grau de sustentabilidade de uma empresa influencia na sua escolha de se candidatar a um emprego. Ou seja, empregar ações sustentáveis também influencia diretamente na atração de talentos.  

PMEs ainda precisam fazer mais para reduzir emissões

Embora a compra de créditos de carbono seja uma estratégia relevante para as empresas, Vanessa Pinsky destaca que ela não é a panaceia para as mudanças climáticas. “As empresas devem reduzir as suas emissões de carbono por meio de mecanismos de compensação, projetos e iniciativas de mitigação, caso contrário, vira um mercado de compra e venda de direitos de poluição. E isso não reduz as emissões”, defende.

De acordo com ela, outras estratégias em prol da sustentabilidade estão associadas a:

  • Uso de lâmpadas LED; 
  • Compra ou geração de energia renovável (painéis solares);
  • Redução do uso de embalagens;
  • Reciclagem de resíduos sólidos; 
  • Eliminação de plástico;
  • Uso de sensores de luz nos ambientes;
  • Compra de equipamentos que tenham eficiência energética. 

Com a série de atividades aqui listadas, as pequenas e médias empresas já podem começar a dar o pontapé inicial no investimento em sustentabilidade.

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Esse artigo pode se referir a produtos, programas ou serviços ainda não disponíveis em seu país, ou pode ter restrições legais ou regulatórias. Sugerimos que você consulte o provedor de software diretamente para informações sobre disponibilidade do produto ou conformidade com as leis locais.

Sobre o(a) autor(a)

Analista de conteúdo do Capterra, cobre as tendências de tecnologia e inovação. Jornalista com mestrado em comunicação pela UAB, de Barcelona. Gosta de criar playlists aleatórias.

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