Os funcionários estão gastando mais para realizar o seu ofício sem que seu salário acompanhe essa movimentação, segundo pesquisa sobre mercado de trabalho. Empresas devem encontrar maneiras de ajudar seu quadro de trabalhadores a reduzir esse impacto financeiro.

Neste artigo
- Custos dos trabalhadores relacionado com o emprego aumentaram nos últimos 12 meses
- Os custos com supermercado aumentaram para a maioria no último ano
- Respondentes citam combustível como o principal custo de deslocamento para ir ao trabalho
- Qualidade de vida é o principal fator para a preferência pelo trabalho remoto; economia de dinheiro aparece apenas na quinta posição
- Como ajudar os funcionários a absorver o aumento das despesas relacionadas ao trabalho
Os trabalhadores brasileiros têm enfrentado nos últimos 12 meses um aumento nos custos associados ao seu emprego atual, mais especificamente em despesas como cuidados com filhos, serviços públicos e deslocamento para o trabalho, de acordo com a Pesquisa sobre o Custo do Trabalho 2024, do Capterra.
O aumento nos preços de bens de consumo e serviços, como consequência da inflação e de questões sociais e ambientais, gerou uma repercussão direta no bolso dos trabalhadores brasileiros, independentemente se trabalham de forma remota, híbrida ou presencial.
As empresas podem avaliar como auxiliar os funcionários frente a este cenário desafiador, mantendo o engajamento e a satisfação deles, além de continuar sendo uma opção atrativa de companhia para trabalhar. Por exemplo, uma ação possível é a ampliação ou ajuste dos benefícios corporativos oferecidos de forma que as soluções sejam flexíveis e sustentáveis a longo prazo.
Neste novo levantamento, foram entrevistados 244 trabalhadores brasileiros para entender quais são os gastos envolvidos com o trabalho. A metodologia completa está disponível no final do artigo.
Custos dos trabalhadores relacionado com o emprego aumentaram nos últimos 12 meses
Os gastos estão pesando mais no bolso dos trabalhadores brasileiros. Isso porque 71% dos respondentes do estudo do Capterra disseram que seus custos financeiros pessoais associados ao seu emprego atual aumentaram nos últimos 12 meses.
Trata-se de custos que, em muitos casos, não são opcionais ou não podem ser cortados, como por exemplo alimentos, energia elétrica e conta de água.

Mas, se os gastos aumentaram, como está o panorama dos salários?
Novamente, o cenário não é totalmente favorável.
A maior parcela dos entrevistados (56%) indicou que a remuneração no seu emprego atual não acompanhou a quantidade de dinheiro que gastam para exercer o seu trabalho, o que significa que não puderam absorver melhor esses custos. Por outro lado, mais de 4 de cada 10 respondentes (44%) viram os reajustes de seu salário acompanharem as despesas relacionadas com exercer seu trabalho atual.
É importante que gerentes e tomadores de decisão tenham em mente que preocupações financeiras podem afetar a motivação dos empregados, gerando situações que podem impactar o desempenho das atividades diárias.
Nem sempre é possível que a empresa assuma grandes aumentos de salários dos seus funcionários, já que a gestão de remuneração depende de uma série de indicadores, como os valores praticados no mercado ou a performance dos indivíduos.
Ainda assim, há oportunidades para que as companhias deem apoio aos trabalhadores. Uma das medidas recomendadas é a criação de um programa de bem-estar financeiro (conteúdo em inglês). Esta ação pode incluir a disponibilização de acesso a um consultor financeiro ou a organização de treinamentos sobre educação financeira, ajudando as pessoas a aprenderem a planejar melhor suas finanças.
Os custos com supermercado aumentaram para a maioria no último ano
O Capterra apresentou 12 categorias de bens e serviços para os respondentes avaliarem em qual delas seus custos pessoais mudaram nos últimos 12 meses.
Em oito das categorias apresentadas, mais da metade dos entrevistados notaram um aumento; esta subida foi especialmente maior no caso dos gastos com supermercado.

O resultado indica também que o aumento dos custos pessoais relacionados ao trabalho impactou os empregados, não importa o arranjo em que estão atualmente –remoto, híbrido ou presencial.
Como indica o gráfico, os serviços de utilidade pública, que englobam o fornecimento de energia elétrica e água, sofreram um importante aumento de custos.
Esta categoria afeta especialmente aquelas pessoas que trabalham de maneira remota, pelo menos em alguma parte do tempo. Além disso, o fato de passarem mais tempo em casa por conta do trabalho pode inclusive ter levado a um aumento maior nas contas.
Já o combustível é a terceira categoria com um aumento expressivo. Esse item, por sua vez, impacta principalmente os indivíduos que atuam de maneira presencial e se deslocam com automóveis, tornando mais caro para eles irem até o trabalho.
Respondentes citam combustível como o principal custo de deslocamento para ir ao trabalho
Atualmente, 78% dos trabalhadores devem se deslocar com alguma frequência até o seu ambiente de trabalho –o porcentual trata da soma entre os que trabalham presencialmente e de maneira híbrida.

A maioria dos trabalhadores em arranjos híbrido ou remoto (58%) utilizam um veículo pessoal –moto ou carro– para se deslocar até o local de trabalho da sua empresa, enquanto 31% optam pelo transporte público para fazer o trajeto entre sua casa e o local de trabalho.
Sendo assim, não é à toa que o principal gasto dos entrevistados que têm de se deslocar até o local de trabalho seja com combustível (50%), seguido por bilhetes de transporte público (26%).

Trata-se de uma despesa que parece ser inevitável não sentir no bolso, já que 70% dos respondentes em modalidade presencial ou híbrida têm de percorrer uma longa distância, entre 5 e 50 quilômetros, para chegar até o local de trabalho da empresa, o que faz com que o veículo pessoal seja muitas vezes necessário.
Antes do advento do trabalho a distância, alguns custos de deslocamento eram naturalmente absorvidos pelos funcionários e não estavam tão visíveis quanto hoje em dia, com a popularização de novos arranjos de trabalho.
Dito isso, em relação à responsabilidade sobre os gastos com deslocamentos até o local da empresa, para todos os casos a maioria dos respondentes acreditam que o empregador deveria arcar com as despesas –é importante destacar que o vale-transporte é um benefício garantido por lei para os trabalhadores em regime CLT.

Nesse contexto, o trabalho híbrido acaba sendo uma opção para reduzir os gastos dos funcionários com deslocamento, como abordaremos em seguida. Mas nas situações em que o arranjo remoto não é possível, as companhias podem considerar outras medidas:
- Escolha de um escritório acessível e próximo a transporte público;
- Incentivo à carona solidária entre os funcionários;
- Opção de subsídio para combustível ou estacionamentos.
Essas estratégias não apenas podem ajudar a reduzir os gastos relacionados ao deslocamento, mas também mantêm a opção do trabalho flexível e promovem uma cultura mais sustentável e colaborativa.
Qualidade de vida é o principal fator para a preferência pelo trabalho remoto; economia de dinheiro aparece apenas na quinta posição
O trajeto entre a residência do trabalhador e o seu local de trabalho é hoje um dos entraves em relação aos custos com o emprego.
Mais da metade dos trabalhadores que trabalham presencialmente ou de maneira híbrida (60%) já pensaram em se mudar para ficar mais perto do local de trabalho da empresa.
Embora pareça uma solução eficiente, nem sempre a mudança acaba sendo viável, já que nessa transição os custos com moradia e outras despesas podem aumentar dependendo da nova localização escolhida pelo trabalhador.
Uma das principais medidas que pode ajudar os funcionários a reduzir os custos de deslocamento é a implantação ou ampliação da política de trabalho remoto ou híbrido.
Isso, inclusive, parece ser uma medida que está de acordo com os desejos dos funcionários, uma vez que 86% se mostraram em algum ponto a favor do trabalho remoto; apenas 14% disseram que preferem trabalhar no local da empresa o tempo todo.

Apesar das despesas com deslocamento, os dados do Capterra expõem que não é necessariamente as finanças que fazem os trabalhadores elegerem o trabalho remoto, pelo menos em parte do tempo, como seu modelo preferido.
Para este grupo de respondentes, o principal motivo da escolha é a melhoria do equilíbrio entre vida pessoal e profissional (42%). A economia de dinheiro foi citada por apenas 8% dos respondentes.

O resultado indica que, mesmo com a alta dos preços, os trabalhadores valorizam mais o seu bem-estar do que a economia de dinheiro quando se trata de atuar de maneira remota em pelo menos alguma parte do tempo.
Isso exige que a equipe de recursos humanos (RH) das empresas olhe com mais atenção para a demanda dos trabalhadores, independentemente da modalidade de trabalho implementada.
Ações como flexibilidade de horário, autonomia, respeito ao horário do expediente, estímulo a realizar atividades fora do trabalho são ideais para atenderem as necessidades dos indivíduos, podendo ser muito mais eficientes para mantê-los engajados.
Como ajudar os funcionários a absorver o aumento das despesas relacionadas ao trabalho
Os dados do Capterra ajudam a dar visibilidade às despesas financeiras relacionadas ao trabalho que infligem os funcionários, permitindo encontrar soluções para ajudá-los a controlar esses custos. Abaixo estão algumas ações que sua empresa pode considerar.
Pesquisa de opinião
Antes de tomar qualquer medida, é importante conhecer quais são os elementos que seus funcionários priorizam e valorizam em relação ao arranjo de trabalho e os benefícios oferecidos pela sua empresa.
Realizar uma pesquisa de opinião é uma maneira de conhecer quais são as necessidades dos seus trabalhadores para poder avaliar se a empresa é capaz de supri-la de alguma maneira.
Arranjo de trabalho
A pandemia de 2020 mostrou que as empresas podem implementar políticas totalmente remotas ou híbridas (há companhias que já testam a semana de quatro dias). Assim, os funcionários podem decidir o melhor momento para ir presencialmente ao escritório, o que os auxilia também a equilibrar os custos de deslocamento e gastos com home office.
Mesmo com o trabalho a distância, os funcionários se motivam a ir ao local da empresa. Por exemplo, outro estudo do Capterra mostrou que os trabalhadores estão mais dispostos a ir presencialmente no escritório para a maioria das modalidades de reuniões analisadas.
Benefícios flexíveis
Nem todos os trabalhadores possuem as mesmas necessidades quando se trata de benefícios de trabalho –como auxílio transporte, convênio médico, auxílio-creche; portanto, oferecer benefícios fixos faz com que sua empresa não leve em consideração as particularidades dos indivíduos.
Uma maneira de lidar com esse desafio é estabelecendo uma política de benefícios flexíveis. Essa estratégia consiste em oferecer opções de benefícios e deixar que os trabalhadores montem seu pacote de maneira personalizada. O time de RH pode utilizar um software de administração de benefícios para administrar esse processo e mantê-lo em conformidade com a lei.
Análise de mercado
Alguns benefícios de trabalho são obrigatórios pela legislação trabalhista do Brasil. No entanto, as empresas podem ir além e oferecer benefícios não obrigatórios, que acabam servindo como um diferencial em relação ao mercado, como vale-academia, vale-cultura ou auxílio educação.
Para escolher que tipo de benefícios oferecer aos trabalhadores, vale a pena realizar uma pesquisa de mercado para avaliar o que outras empresas estão disponibilizando ao seu quadro de funcionários. Além disso, também é necessário averiguar a capacidade financeira da empresa para que a estratégia seja sustentável a longo prazo.
Metodologia
A Pesquisa sobre o Custo do Trabalho 2024 do Capterra foi realizada on-line em março de 2024 com 244 participantes de todas as regiões do Brasil. O objetivo do estudo era revelar as despesas dos funcionários com o trabalho, seja remota ou presencialmente. Para participar do estudo, os entrevistados deveriam trabalhar em tempo integral ou parcial.