Nativos digitais e imigrantes digitais pertencem a gerações diferentes e devem, cada vez mais, atuar juntos no mercado de trabalho. No entanto, eles não têm as mesmas necessidades quando se trata do uso de ferramentas digitais. Essa pesquisa ajuda as empresas a superar possíveis lacunas geracionais. 

Pesquisa mostra diferenças entre nativos digitais e imigrantes digitais no mercado de trabalho

Um dos conceitos que pautou o mercado de trabalho nos últimos anos foi a necessidade de promover um ambiente diverso dentro das empresas. A diversidade, equidade e inclusão (DEI) é uma estratégia que acima de tudo promove a justiça social, mas também valoriza a criatividade e a inovação nas empresas ao exaltar as diferenças. 

Quando se fala de diversidade, a discussão também gira em torno da inclusão de pessoas de diferentes idades em um mesmo ambiente de trabalho, de forma a evitar a discriminação etária –também conhecida pelo termo etarismo. 

Trata-se de um tema que deve ganhar ainda mais força no Brasil, já que o País passa por um processo de mudança demográfica com o envelhecimento da população, e atualmente lida com uma inclusão pífia de pessoas maiores de 50 anos no mercado de trabalho

No intuito de observar como os trabalhadores lidam com o trabalho em um mundo digital, o Capterra lança um estudo com um recorte geracional para entender as particularidades de cada faixa etária, especificamente na questão do uso de ferramentas digitais, e assim guiar as empresas na inclusão de trabalhadores e na elaboração de treinamentos corporativos.

Neste artigo, cada geração foi classificada a partir da seguinte nomenclatura:

  • Baby boomers: nascidos entre 1946 e 1964;
  • Geração X: nascidos entre 1965 e 1979;
  • Geração Y: nascidos entre 1980 e 1994;
  • Geração Z: nascidos entre 1995 em diante.

O levantamento online contou com a participação de 1024 trabalhadores de 18 a 65 anos que utilizam um computador para executar suas tarefas diárias. Confira a metodologia completa no final do artigo.  

Nativos digitais vs. imigrantes digitais

Os dois conceitos, nativos digitais e imigrantes digitais, caracterizam as gerações pelo seu contato com novas tecnologias e o universo online. Eles ajudam a explicar a lacuna digital entre as gerações, já que elas vivenciaram a realidade digital de maneiras diferentes. 

Os nativos digitais estavam nascendo ou já entravam na adolescência quando houve a evolução tecnológica, com o desenvolvimento e difusão da internet além do acesso a celulares e computadores. A este grupo pertencem os membros das gerações Y e Z e se considera que possuem mais familiaridade com recursos digitais.

Já o termo "imigrantes digitais" define os membros da geração X e os baby boomers, que já eram mais adultos no advento da era digital. Eles tiveram que se adaptar à linguagem e às práticas da vida virtual também no ambiente laboral.

Geração Z é a mais entusiasta do trabalho remoto

Criar um ambiente heterogêneo é um dos grandes desafios das empresas que querem superar o etarismo. Isso porque cada geração trabalha de maneiras diferentes, muito como consequência do contato que tiveram com as plataformas digitais.

No que se refere à preferência em relação ao modelo de trabalho, ao olhar o número total das respostas, dois terços dos entrevistados (66%) demonstraram preferir um modelo de trabalho híbrido, que inclui alguns dias remoto e outros presencialmente no escritório da empresa. 

O tema da inclusão digital se reflete também na preferência em relação ao modelo de trabalho

No entanto, quando nos debruçamos na análise por gerações, alguns insights se sobressaem. Por exemplo, na escolha do trabalho totalmente remoto, os nativos digitais, especialmente os membros da geração Z, mostraram-se os mais entusiastas do modelo (21%). 

Esse porcentual vai diminuindo entre as gerações, sendo que os baby boomers são os que mais rejeitam o trabalho totalmente virtual, já que apenas 11% dos respondentes deste grupo disseram que essa seria a preferência deles.

Pesquisa de inclusão digital mostra preferência de trabalhadores em relação ao modelo de trabalho

Atualmente, não parece que o mercado laboral esteja totalmente preparado para o trabalho 100% remoto, já que apenas pouco mais da metade de todos os entrevistados (58%) demonstrou que suas funções podem ser realizadas dessa maneira. 

Para encontrar um modelo ideal, que abarque as preferências dos trabalhadores, é importante abrir um canal para que eles possam dar feedback sobre a política adotada pela empresa –a criação de formulários permite a elaboração de pesquisas de opinião. 

Como as empresas podem administrar o trabalho híbrido

Após a crise sanitária causada pelo COVID-19, muitas companhias mantiveram o trabalho remoto por meio da implementação do modelo híbrido, de forma a atender a demanda dos trabalhadores e reter talentos. Abaixo, reunimos dicas para o desenvolvimento de uma estratégia de trabalho híbrido nas empresas.

  • Abrace a flexibilidade: permita que os trabalhadores tenham liberdade para decidir quando ir ao escritório; trata-se ainda de uma maneira de incentivá-los a uma melhor organização da sua vida profissional e pessoal.  
  • Fortaleça o contato: promova oportunidades de encontro entre os trabalhadores para a criação de conexões, seja organizando reuniões presenciais ou eventos corporativos.
  • Ofereça ferramentas: dê acesso aos funcionários às tecnologias necessárias para a execução do seu trabalho de maneira remota, como softwares de comunicação em equipe, por exemplo; além dos sistemas, providencie equipamentos ergométricos para o trabalho à distância.
  • Esclareça as exigências: crie uma política do trabalho híbrido estabelecendo regras e principalmente o que é esperado dos funcionários nesse modelo de trabalho.
  • Estabeleça a dinâmica: todas as atividades de um escritório devem funcionar no virtual, portanto promova transparência informando os membros da equipe sobre evolução de projetos e no que outras pessoas estão focando. Também, encontre formas de promover reconhecimento na conclusão de uma meta coletiva ou individual.

Maioria das empresas treinou funcionários para uso de sistemas digitais profissionais

As competências profissionais estão se tornando mais dependentes da capacidade dos trabalhadores de usar ferramentas digitais, acreditam 91% dos entrevistados. 

Entretanto, desse grupo de entrevistados, há diferentes impressões sobre a situação: 66% dos baby boomers estão confortáveis em algum nível com esse cenário frente a 81% dos membros da geração Y –o número é a soma dos que estão muito e um pouco confortáveis–, conforme destrincha o gráfico abaixo.

Nativos digitais são os mais confortáveis com a dependência do uso de sistemas digitais

E mesmo que, hoje em dia, independentemente da idade, as pessoas estejam acostumadas a usar algum tipo de tecnologia digital, isso não exime as empresas da responsabilidade de promover treinamentos para o uso de sistemas. Especialmente porque, quando se trata de diferentes gerações, cada profissional aprende de uma maneira.  

Dada a complexidade das ferramentas digitais, que constantemente mudam seus produtos ou agregam novas funcionalidades, as companhias devem estar atentas à necessidade de organizar treinamentos corporativos com frequência.   

Pelo menos isso já vem sendo feito por 75% das empresas –essa foi a quantidade de trabalhadores que relataram que suas empresas ofereceram suporte ou treinamento no uso de sistemas digitais, embora através de iniciativas diferentes. 

De acordo com 38% dos participantes, eles receberam treinamento ou suporte da empresa para aprender a usar as ferramentas digitais sem ter solicitado. Já outros 37% também receberam treinamento, no entanto, tiveram de solicitá-lo. 

A quantidade de respondentes que recebeu treinamento em sistemas digitais

Houve também 20% dos entrevistados que não receberam treinamento ou suporte, mas gostariam de recebê-los. Na análise por gerações, esse número tende a ser mais alto entre os imigrantes digitais e mais baixo entre os nativos digitais:

  • Baby boomers (30%) 
  • Geração X (26%)
  • Geração Y (19%)
  • Geração Z (11%) 

Como dito anteriormente, as duas últimas gerações são as que estão mais acostumadas a usar sistemas digitais desde tenra idade. 

No geral, os funcionários acreditam que a empresa deveria se esforçar mais para treinar os funcionários para o uso de ferramentas digitais profissionais – 92% dos que receberam treinamento ou gostariam de ter treinamento se mostraram a favor dessa ação. 

A necessidade de treinamento é uma demanda maior entre os imigrantes digitais

Novamente o recorte de gerações ganha força: 98% dos baby boomers defendem essa posição frente a 87% dos membros da geração Z. 

Tendo em mente essa necessidade, além de organizar treinamentos, as empresas podem criar uma base de conhecimento que reúna todas as orientações relacionadas a como usar um programa. Criando esse tipo de informação, os trabalhadores podem consultar uma fonte segura sempre que tiverem dúvidas sobre como executar algum programa.   

Qual o melhor tipo de suporte de acordo com cada geração?

A maneira de aprender difere de pessoa a pessoa, e essa situação se acentua ainda mais quando se trata de indivíduos de diferentes gerações, com distintos níveis de educação digital. 

Dica de especialista

É importante lembrar que os imigrantes digitais podem ser mais analógicos no aprendizado, enquanto os nativos digitais podem preferir recursos mais virtuais. O consultor de RH Caio Barroso, em entrevista ao Capterra, defende que, quando a empresa entende como as pessoas preferem consumir conteúdo educativo, ela consegue atualizar também a sua forma de ensinar.

Dos profissionais que sinalizaram que a empresa deveria se esforçar mais para treinar os usuários na utilização de ferramentas digitais profissionais, os três principais modelos de treinamento que gostariam de ter acesso foram:

  • Cursos ou treinamentos online realizados pela empresa (68%)
  • Treinamento interno, como workshop realizado no escritório (61%)
  • Treinamento online individualizado (47%)

Seja realizando treinamentos online ou presenciais, é importante que as empresas considerem também as estratégias modernas de capacitação dos funcionários. Uma delas é o sistema de microaprendizado, que permite aos profissionais terem acesso a conteúdos mais curtos, podendo ajudá-los a absorver melhor o material ao longo da rotina de trabalho.

Treinamento em ferramentas de IA é uma necessidade de todas as gerações

A recente popularização do uso de inteligência artificial (IA) no contexto corporativo desperta a necessidade da realização de treinamentos para que os funcionários adquiram novas habilidades demandadas por essa tecnologia. 

Especialmente no caso dos sistemas de IA generativa, que são capazes de gerar conteúdo criativo do zero, é necessário que o usuário insira um prompt (comando) adequado para que a ferramenta entregue o melhor resultado possível. A precisão no uso dessas ferramentas, claro, vem com o treinamento da força de trabalho.

No estudo do Capterra, dos que sinalizaram que as empresas deveriam colocar mais esforço em treinar sua força de trabalho em ferramentas digitais, 48% apontaram que gostariam de ser treinados em sistemas de IA. Trata-se de uma das principais categorias citadas por todas as gerações analisadas na pesquisa.

Vale a pena saber

Embora seja uma tecnologia em ascensão, mais de um quarto dos trabalhadores que estão em contato com a IA generativa na sua rotina laboral creem que, atualmente, a tecnologia já pode substituir de 21% a 30% do seu trabalho, de acordo com outro estudo do Capterra. Tal automação de atividades abre oportunidade para que os funcionários adquiram outras competências profissionais.

O software de gestão de projetos é outro programa citado pela maioria das gerações como uma ferramenta que gostariam de receber mais treinamento (39%). Trata-se de um tipo de sistema que ajuda as equipes a coordenar e planejar projetos, acompanhar o progresso em relação aos prazos e monitorar os orçamentos dos projetos. Ele também pode ajudar equipes híbridas a colaborar em projetos e acessar informações sobre qual membro da equipe é responsável pelo quê. 

Treinamento de funcionários em sistemas de gestão de projetos

Uma maneira de as empresas superarem as dificuldades no uso de sistemas é estabelecendo usuários-chave e os encarregando para ajudar os demais na sua interação com os programas. As ferramentas de comunicação em equipe podem facilitar a interação entre os funcionários e garantir o auxílio quando necessário. 

Como cada geração se mantém atualizada em relação aos sistemas digitais?

Novos produtos digitais são lançados com muita frequência, o que faz com que sistemas que não se atualizam fiquem obsoletos caso não acompanhem as novidades e demandas do mercado. Por conta desse cenário, o universo digital passa por mudanças constantes, exigindo que os profissionais se mantenham atualizados para acompanhar o ritmo de evolução. 

No geral, os respondentes se mantém atualizados sobre as ferramentas digitais por meio das redes sociais (63%), sendo que esse porcentual é mais significativo entre as gerações Z (71%) e Y (65%) do que entre a geração X (55%) e os baby boomers (48%).

Esse último grupo, na verdade, parece preferir realizar a atualização dos seus conhecimentos por meio de estudos, por exemplo, fazendo cursos (58%). Isso indica, mais uma vez, a necessidade da criação de treinamentos mais personalizados, que levem em conta as particularidades dos membros da equipe. 

Dicas para criação de treinamento corporativo

Os treinamentos corporativos são necessários para a manter a produtividade dos trabalhadores, já que os orientam a cumprir o que é esperado deles. Abaixo, separamos algumas dicas para a criação de treinamentos com foco na orientação do uso de plataformas digitais:

  1. Organize sessões de treinamento: monte sessões regulares de capacitação e, se for necessário, divida-as em tópicos específicos, de forma a ajudar os usuários a absorver melhor cada recurso da plataforma.
  2. Pense em formatos: cada profissional pode ter uma forma de aprendizado diferente, considere o uso de diferentes formatos –plataformas LMS oferecem essa possibilidade. Vídeo, imagens e memes podem ser tão eficientes quanto textos para transmitir uma ideia.
  3. Invista no presencial: workshops presenciais ou seminários podem funcionar melhor para alguns funcionários, além de ser uma maneira de estimular a presença da equipe no escritório. As ferramentas de apresentação ajudam na organização do conteúdo para essas ocasiões. 
  4. Crie um passo a passo: desenvolva uma biblioteca online com prints e explicações de passos importantes para executar uma tarefa em um programa. Esse tipo de estratégia é conhecida também como base de conhecimento e incentiva ainda os trabalhadores a serem mais autônomos na sua busca por informação.

Destaques do estudo

Criar um ambiente de trabalho diverso também em faixa etária é uma maneira de garantir que a estratégia de DEI da empresa está funcionando. Abaixo separamos os principais insights que podem ajudar as companhias na adoção de práticas que evitem o etarismo:

  • Os membros da geração Z são os mais entusiastas do trabalho 100% remoto; apesar disso, o mercado de trabalho parece não estar totalmente pronto para a modalidade, já que pouco mais da metade dos respondentes indicou que suas funções podem ser realizadas dessa maneira.
  • De maneira geral, a maioria dos funcionários disse que recebeu treinamento da empresa para aprender a lidar com ferramentas digitais. No entanto, dos que não receberam e gostariam de receber, é mais expressivo o porcentual entre os membros da geração X e baby boomers do que aqueles de gerações mais novas.
  • Treinamentos relacionados a ferramentas de IA são uma necessidade para todas as gerações.
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Metodologia

Os dados presentes neste estudo foram compilados a partir de um levantamento online realizado em agosto de 2023, contando com a participação de 1024 pessoas entre 18 e 65 anos, de todas as regiões do país.

Em relação à divisão por faixas etárias, a quantidade total de participantes foi de:

  • Baby boomers: 53
  • Geração X: 257
  • Geração Y: 476
  • Geração Z: 238

Os respondentes eram trabalhadores de tempo integral ou parcial e deveriam usar um computador para executar suas tarefas diárias.